RELATÓRIO MÉDICO SUPÕE VIOLÊNCIA POLICIAL

Guilherme Kappel

Durante o período natalino levamos um cidadão infrator preso por furto e sem qualquer lesão a um estabelecimento público de saúde para que lá fosse avaliado por um médico de plantão. No entanto, o relatório médico veio com uma observação no mínimo curiosa: "Paciente sob a custódia da polícia, podendo omitir informações devido a medo de represália."
Apesar de a princípio, não vislumbrar qualquer conduta ilegal por parte do médico, a minha opinião pessoal e expressa é de que no mínimo, ela foi inadequada, pois já parte de um pressuposto de que há no Brasil, uma cultura de violência policial, de abuso, de tortura, cujo infrator, temendo pela sua integridade física, possa omitir informações durante a avaliação médica.

Não brinco quando digo as pessoas, grande parte amigos próximos, pois não gosto de discutir esse assunto com leigos, que no Brasil existe há anos um forte projeto de desvalorização das forças de segurança pública, que atinge direta e indiretamente, todos os segmentos sociais. Nunca me senti vítima de preconceito pela minha cor da pele, mas várias vezes já me senti descriminado pela profissão que tenho, em uma espécia de "labutofobia". Muitas pessoas já me pré julgaram sem nem mesmo me conhecer profissional ou pessoalmente. É triste ver que em nosso país, até mesmo exercendo profissões conhecidamente intelectuais, pessoas se deixam levar por discursos ideológicos e políticos que tem sido repetidos há anos sem a análise devida, sem estudo e sem senso crítico.

Vejo que hoje, cada vez mais, ter conhecimento não é o mesmo que ter maturidade intelectual, de ser capaz de julgar e filtrar aquelas informações que são recebidas, seja pela internet ou por qualquer outro meio de comunicação. Estou cansado de ver generalismos tomando conta de nossa profissão. Discursos como esse que está no relatório, é uma afronta a instituição que trabalho, uma afronta aqueles que como eu e vários outros, tentam trabalhar da melhor maneira possível e realmente fazer a diferença em nossa sociedade. Afirmo ainda, sem nenhum medo, que profissionais como eu, que realmente querem trabalhar certo e não cometer arbitrariedades, são a maioria. Mesmo porque, há anos, nós policiais já pisamos em ovos. Mesmo trabalhando corretamente, por vezes somos processados e somos envolvidos em procedimentos diversos, sejam penais ou administrativos, que coloca a nossa integridade jurídica em cheque e que não é de nosso interesse, fragilizar ainda mais nossa situação cometendo atos ilegais, como o presumido no relatório médico. Por anos na faculdade de Direito vi "pseudoespecialistas" em segurança pública sustentaram argumentos frágeis, errados e imprecisos, que possuem fontes duvidosas. São intolerantes lutando contra a intolerância.

Quando questionamos o médico em relação ao seu relatório, ele disse que o seu advogado o instruiu a fazê-lo nesses moldes, para se resguardar juridicamente. A conduta do médico, seria o mesmo que em todos os nossos boletins de ocorrência, colocássemos que "Apesar do infrator que foi preso ter sido avaliado por um médico, nada impede que o seu quadro clínico ou de saúde se agrave em razão de um provável erro médico." Ao meu ver, essa afirmação também não seria ilegal, mas desnecessária. Não é porque PODEMOS, que DEVEMOS. Me parece que todos os profissionais e instituições que estão direta ou indiretamente envolvidas na Segurança pública estão se digladiando, enquanto deveriam estar se unindo. Desmerecer os outros, ou a classe alheia para se enaltecer ou tentar se "preservar juridicamente", além de antiprofissional, ao meu ver é também uma prática irresponsável e desvirtuosa. Vale ressaltar que não estou aqui também generalizando a classe médica, pelo contrário, sempre lutei e luto contra generalismos. Admiro e muito a profissão médica e reconheço a sua importância, e espero que esse tenha sido somente mais um caso isolado, e que não representa o que a totalidade da classe médica pensa sobre nós. Ser profissional é exercer com plenitude a sua função, e não ultrapassar ela.

Fico surpreso que a grande maioria daqueles que tentam compreender a situação da segurança pública atual nunca tenham tido acesso a figuras como Iury Bezmenov falando sobre o "Processo de subversão" e George Kirkham relatando a sua história de como se tornou policial sendo professor universitário de criminologia, e como ele mudou o seu jeito de pensar e ver a polícia após isso. Existe em nosso país, uma colonização cultural que limita o nosso grau de acesso a alguns assuntos e grande parte daquilo que temos como objeto de estudo, estão munidos de tendenciosidades e inclinações políticas. Não se assustem se nos meios acadêmicos, principalmente de Direito e História, a maioria daquilo que cita sobre segurança pública é contra o Estado, contra as forças de segurança e privilegiam o infrator. A figura do criminoso é quase sempre glamourizada enquanto que a do policial é posta a dúvida. No fim, o herói é o bandido, e o policial o vilão.

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