Balanço das águas

arailda@terra.com.br

No universo com três quartos de água e somente um quarto de terra, embora se diga que essa quantidade líquida não tenha alterado há mais de quatro bilhões de ano, ou que lagos e rios sequem formando enormes torrões, deixam-nos céticos. Ondas energéticas atuam na atmosfera provocando catástrofes enchendo de mistérios a bela e “intocável” natureza, que o homem pensa dominar. Daí o paradoxo existencial da humanidade, que passa a refletir e reagir ante a dor dos atingidos. Outros, como as torrentes pluviais, que surpreenderam irmãos do norte e do sul, há algum tempo, mas que se fixam na memória dos que sentiram e na dos insensíveis,que saqueiam, aproveitam-se da confusão e nada fazem no exercício da solidariedade.

A terra traz mutações a que o homem se obriga a adaptar-se a ela. Cansado, está, de saber que o aquecimento, a poluição e o desmatamento assolam irreversivelmente, a atmosfera, que cobra de forma avassalante e sem piedade. Se não sabemos viver razoavelmente confortáveis e corremos atrás de ambicionados projetos gerando riquezas à custa do desconforto e sofrimento alheios, se montanhas desabam soterrando casas, coisas e gente, se o “rio vira mar”, se avalanches desencadeiam tremores de terra destruindo florestas orquestradas pela mãe natureza, não se pode controlar toda essa força gigante, que a tudo engole de forma esfomeada e furiosa. Os elementos da natureza - terra, água, ar e fogo - em quarteto de surpreendente conexão, pressagiam condições climáticas de calmaria ou de destruição a que o homem pouco se atenta a eles. Dizem que em 582 D.C. choveu “sangue” em Paris deixando a população aterrorizada supondo ver ali aviso divino. Nada mais fora causado por forte ventania trazendo poeira vermelha oriunda do Saara e do Mediterrâneo misturando-se à chuva.

Hoje, tanto se fala no efeito estufa aumentando o calor a ponto de derreter geleiras glaciais. A temperatura do globo faz subir os níveis dos oceanos. Chuvas desabam em certas regiões e o sol castiga planícies, nas calmarias dos prados e nos vales férteis. Todo um desequilíbrio com explicações científicas no acúmulo de gases atmosféricos gerando catástrofes com as quais nos surpreendemos, trazem visão aterradora. Se precauções são tomadas, ainda é pouco. O balanço das águas em estados irmãos, de norte a sul para nos atermos ao nosso Brasil “tão bonito por natureza,” conforme diz a canção, trocou o movimento de um balouçar em acalanto por triste e irreversível elegia cujos ecos jamais deixarão de soar.  Imagens fantasmagóricas de águas rolando e carregando tudo à passagem, eclodiram-se em monturos de lama num país “tropical e abençoado por Deus.”

Imaginem, não acreditássemos nesse embalo!..

Arahilda Gomes Alves ocupa  cadeira 33 da Academia de Letras do Triângulo Mineiro. É Cônsul dos Poetas del Mundo; Diretora fundadora Fórum Articulistas de Uberaba e Região                                                                       

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