Transitoriedade do ‘esquisito’

Por:  Ana D'Austria Marega Cardoso

O Museu de Arte Moderna, em São Paulo, não havia a muito tempo sido tão comentado, como nas últimas semanas. O motivo é a interpretação do coreógrafo Wagner Schwartz,da obra “Bicho”, de Lygia Clark.Consistia basicamente ( bem basicamente mesmo) em um homem nu que as pessaos podiam interagir, entre elas, crianças.Por todos os lado e em todas as mídias, tem uma opinião que se difere ou fale algo que alguma outra já expôs. O episódio causou muito choque de valores, justamente por ‘escancarar’ aquilo que pouco se fala: a nudez.

Para alguns, foi errado a criança ter sido exposta a uma situação que talvez, fossa má interpretada, culpando assim, a mãe de ter levado ao museu, incentivando uma prática precoce. Para outros, não tinha nada demais a criança ser exposta, e levando em consideração que a mãe consentiu que a menina interagisse. Embora tão diferentes, Rosely  Sayão tem razão, quando diz ’que  nenhuma das duas vertentes, estão pensando na invasão da privacidade que a criança está sendo submetida’, pois concordando ou discordando de qualquer um dos ‘lados’, o vídeo dela está nas mais variadas redes sociais, YouTube e sites de notícias. A vida dessa menina foi invadida, e essa deveria ser a preocupação inicial.

Quanto às pessoas que discordam do fato, é bom lembrar que a performance foi feita em uma sala do MAM separada, em que foi devidamente sinalizada e acompanhada pelos respectivos responsáveis dos menores envolvidos. Ninguém assistiu por engano, por falta de informação, desacompanhado ou sem o consentimento dos responsáveis. O museu publicou um comunicado em que explicava os termos em que ocorreu. Aquele argumento de que a criança poderia se espantar, também é falho (pelo menos relacionado a criança em primeiro plano do vídeo). A menina é filha de uma artista plástica que estava com ela e aparece no vídeo circulado. Para a criança, aquele fato não era tão diferente quanto um filho de médico se deparar com seringas. Não significa que tenha várias seringas em casa, mas está no contexto onde o pai trabalha. E no trabalho da artista, reina a livre expressão.

Já os que concordam com o fato, é bom ter cautela. Tudo que se expõe uma criança, sem ser explicado, pode ser que leve a um processamento da informação de uma perspectiva errada ou pelo menos equivocada. Uma situação como essa, em que se espera uma reação, é necessário muita conversa antes, durante e depois. Até mesmo para não ocorrer uma possível banalização do corpo, para que as mesmas possam reconhecer uma situação de abuso sexual, por exemplo. Tendo um espaço livre dentro de casa, as dúvidas que dão início a intolerância(por exemplo, assiste algo na televisão em que ridiculariza alguma religião, dando uma  interpretação de que o deboche é legal ou divertido), ao preconceito (por exemplo, quando vê algum familiar falando mal de negros, levando a crer que é normal fazer esse tipo de comentário, já que pessoas da família são exemplos que tendem a serem seguidos),e a desonestidade (por exemplo, se o colega mente para a professora para não levar uma‘bronca’, pode não reconhecer os motivos de  falar a verdade até quando estiver errado) podem ser esclarecidas de uma forma mais dinâmica e próxima ao que a família considera certo ou errado, além de estabelecer uma confiança nos pais, podem tornar mais fáceis diálogos no futuro,tido como ‘difíceis’.

Independentemente da opinião do acontecimento em questão, é necessário entender que reconhecer os pontos negativos e positivos, traz uma certa amenidade, já que tudo tem seu lado ‘ruim’ e seu lado ‘bom’, nada é estático. Julgar os pais pelas sua atitudes questionando a capacidade de educar os seus filhos é a maior prova que falta empatia. A não ser que a criança seja exposta a situações de risco eminente, cada um escolhe a forma de educar seu filho, pois, majoritariamente, os pais procuram o bem-estar de seus filhos. E dentre tantos problemas que anda acontecendo no país e no mundo, não falta tópicos para serem debatidos.

Proibir a exposição, ou organizar ataques virtuais nas páginas do MAM, do performer, ou da mãe da criança, é na verdade, um ataque a liberdade de expressão, bem como um ato de intolerância. A ‘ida ao museu’ bem como assistir a performance, não é obrigatório. É aberta ao público justamente para que aqueles que querem, possa entrar e aqueles que não se interessam, poderem seguir seus planos. Apesar de um museu nunca ser tão falado no país (pois frequentado não é, há tempos), causado pela falta do hábito de se investir em cultura no Brasil. Fazendo com que o único foco em relação à exposição seja ‘polemizar’, já que não se desenvolve uma base cultural sólida (com raras exceções).

Quanto à nudez, apenas um questionamento : o que seria da Renascença (assim como Michelangelo, Leonardo Da Vinci,e tantos outros), sem a nudez?

 

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