HIPOCRISIA

Deixemos de lado a hipocrisia e vamos analisar a realidade:

Um professor bem remunerado ($$$$$) pode se dedicar mais às suas turmas. Falo no trabalho extra classe que todos sabem que existe, mas fingem desconhecer. Tenho exemplos vivos de profissionais que estão em sala de aula os três períodos do dia, para sobreviver com este salário de fome. Sim, salário ridículo!! Alguns falam que o salario é bom por se tratar de 20 horas semanais (em média). Mas, estamos aqui falando de qualidade ou quantidade? Somente aquele cego, que não quer ver, para acreditar que o professor trabalha apenas dentro da sala de aula.

 

Pergunto a todos: Qual a diferença de uma aula bem planejada da aula automatizada? Sim, porque o professor que está em sala os três períodos em qual horário vai planejar suas aulas? Se fossem bem remunerados as aulas seriam bem elaboradas e, consequentemente, os alunos mais interessados e melhor preparados.

 

Estou apenas atacando um item, o mais importante, desta relação professor/aluno/patrão. Agora vamos falar de provas e trabalhos, são inumeros os relatos de alunos dizendo que a prova de tal professor foi igual a do ano passado. Claro! Como elaborar uma, duas, até três provas a cada bimestre para cada turma? Uma prova que realmente avalie o aprendizado do aluno. Cada turma tem sua peculiaridade. E os trabalhos? São sempre os mesmos? Sim! Como raciocinar trabalhando três turnos? Sem esquecer que estas provas e trabalhos devem ser corrigidos..... Alguns “sistemas de ensino” ainda exigem uma quantidade ilimitada de papel (que ninguém lê), consumindo ainda mais o tempo do professor que tem que optar entre dar aulas ou preencher esta papelada. Sem entrar no mérito do lixo (papéis desnecessários) e a questão ambiental.

 

Dentro desta realidade veem os senhores políticos e dizem que o salário é o piso, uns até dizem que é acima do piso. Não sei onde aprenderam que piso e teto são a mesma coisa..... A lei do piso salarial da educação diz que o valor x é para no máximo de 40 horas aulas semanais. O entendimento dos senhores feudais, digo, políticos é que o valor x deve ser pago ao professor que ministra 40 aulas semanais e ponto. Depois saem pela imprensa dizendo que valorizam a classe. Que classe? Que valorização? Fazem uma proporcionalidade esdrúxula e gritam aos quatro ventos que pagam acima do piso. Uns fazem pior pois somam ao salário o ticket alimentação e plano de saúde. Ticket e plano NÃO fazem parte do salário!!!! Se fizessem seriam incorporados a aposentadoria, coisa que não acontece.

 

A consequência disso são os “professores”, sem a mínima identidade com a educação, que se formam em alguma, ou  qualquer, disciplina ou pedagogia, pelo preço mais acessível da faculdade, e trabalham em apenas um cargo para, com este salário, conseguir pagar um outro curso, geralmente mais caro, do qual realmente se identifiquem. Desta maneira, assim que se formam deixam a educação tão rápido como adentraram. O famoso bico.

 

Não sejamos levianos a ponto de não perceber tal anomalia. Um professor valorizado ($$$$$) seria mais comprometido com a educação e alunos, não seria um bico. As faculdades seriam procuradas por cidadãos capacitados e competentes e deixaria de ser a segunda (ou terceira, ou quarta) opção daquele aluno que não foi aprovado em uma faculdade mais concorrida. E muito menos sejam cínicos, para não dizer cretinos, o suficiente para repetir velhas afrontas de que “se não estão satisfeitos deixem o cargo” ou “o salário estava claro no edital”. Não deixaremos o cargo para o qual estudamos e fomos aprovados em concurso público (na minha época muito concorrido), no caso do edital tenho que dar a mão a palmatória, no edital de quando prestei e fui aprovado no concurso público estava bem claro e explícito o salário: o equivalente a dez, isso mesmo 10, salários mínimos por mês para um cargo iniciante. Quem quiser pesquisar procure o edital para professores da prefeitura e estado no ano de 1994. Resta saber por que este edital não está sendo cumprido ou o que aconteceu com os reajustes de lá pra cá.

 

De um professor que, infelizmente, não consegue ver a luz no fim do tunel......

 

 

 

 

Edgard Silva Junior

Professor desde 1986

 

 

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